melissa barbery . artista visual
03
'Tocar o céu, Lamber a cidade'
Lamber a Cidade
2023
Segunda obra-citação
“O menino ouvia. – O medo só veio para aqueles que tinham as suas velhas razões para ter medo, e esses passaram a ter medo então do Curau. Eles têm medo de tudo, dizia Jacinto. O menino ouvia. Quando a ave veio, aquele medo andava pelas ruas com passos que nunca levarão a uma terra sagrada, menino, dizia Jacinto. E o menino ouvia. Levantar-se, como quando se diz “o levantar de uma tempestade”. Revirar a gravidade que nos prende ao chão. [...] Poeira que saí das reentrâncias, se levanta. [...] Levantar-se é um gesto. Antes mesmo de começar e levar adiante uma “ação” voluntária e compartilhada, o levantar se faz por um simples gesto que, de repente, vem revirar a prostração que até então nos mantinha submissos (por covardia, cinismo ou desespero). Levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre nossos ombros e entravava o movimento. Essa senhora respeitável e, no entanto, infame. [...] Mas nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera por um acontecimento total que o transfigure [...] Esse medo é o manifesto temor. [...] Só a fábula insurrecta cravada na vida resgatará estética e historicamente a Amazônia dessa miragem: o padrão colonizador imposto a ela. [...] Matar o olho culto herdado das tradições da opressão ocidental sobre nós. Abrir nesta noite regional um outro olho, nativo. Essas são as práticas urgentes. De uma perspectiva menos elementar, essa é a nossa fome mais urgente. [...] E é preciso insistir: Nossa História só terá realidade quando o nosso imaginário a refizer, a nosso favor. E assim se cumprirá o Levante do Curau.”
Esses dias eu escutei alguém falando que quando um artista sai de Belém e vai sentido ao centro-sul do Brasil para expor seu trabalho é esperado dele algo que exponha suas relações hiperbólicas com Amazônia, tudo isso me fez pensar novamente no que Cecim diz, “[...] nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera por um acontecimento total que o transfigure [...]” talvez uma percepção de quem ainda se equilibra entre o exotismo que a floresta exerce sob os estrangeiros e o desejo de libertar-se da selva e ser metrópole, e que ao passar do tempo percebem-se mundiados ansiando em voltar para a casa. Essa relação magnetizada se permite existir entre os seres deste lugar.
Essa é uma observação rasa que lhes trago sobre um assunto que pode ser aprofundado em outro momento, e que, aqui, levou-me a refletir sob minha relação com este lugar, eu nunca percebi se estava sendo ansiada por esta miragem do estrangeiro, na verdade, até hoje não dei a devida importância para isto, para mim, sempre foi algo natural, uma pessoa nascida e criada nesta urbe que tem um contato com partes desta cultura, vivendo e a revivendo. Acredito que por ter sido criada por estrangeiros que sempre ressaltaram Belém como Amazônia.
Alguns dizem que nós que vivemos aqui também não conhecemos a Amazônia, e eu lhes pergunto: o que é conhecer a hiperbólica, se não viver a sua própria experiência? E lhes digo, eu não conheço a tua Amazônia, e tu não conheces a minha, esta que é reservada e revigorada por cada experiência que se vive só, mas que se completa coletivamente, mesmo que esta não seja a intenção, somos colecionados pela hiperbólica, no meu caso, me deixo absorver serenamente e tu?
Pela segunda vez o Lamber a Cidade foi apresentado em uma galeria de arte, desta vez tive mais oportunidades de estar com o público, fisicamente e virtualmente, este segundo através de um QR CODE localizado ao lado da projeção que transportava o expectador para uma página onde eu lhe oferecia mais de nós, artista e obra, pessoalmente pude visitar a galeria algumas vezes e escutar os que lá estava e se interessava pelo trabalho.
Na Galeria de Arte Graça Landeira da Universidade da Amazônia, ao som do vento alto impactando o carro e a parafernália audiovisual, o Lamber a Cidade se apresentou junto a outros trabalhos, e nesta exposição pude ver minha coleção vocalizando suas costuras, seus limites, suas adjacências e afastamentos, e aqui onde vivo e produzo me vi em uma existência imantada a este lugar.