melissa barbery . artista visual
Primeira obra-citação
O menino ouvia. – O medo só veio para aqueles que tinham as suas velhas razões para ter medo, e esses passaram a ter medo então do Curau. Eles têm medo de tudo, dizia Jacinto. O menino ouvia. Quando a ave veio, aquele medo andava pelas ruas com passos que nunca levarão a uma terra sagrada, menino, dizia Jacinto. E o menino ouvia. Levantar-se, como quando se diz “o levantar de uma tempestade”. Revirar a gravidade que nos prende ao chão. Poeira que saí das reentrâncias, se levanta. Levantar-se é um gesto. Antes mesmo de começar e levar adiante uma “ação” voluntária e compartilhada, o levantar se faz por um simples gesto que, de repente, vem revirar a prostração que até então nos mantinha submissos (por covardia, cinismo ou desespero). Levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre nossos ombros e entravava o movimento. É quebrar certo presente – mesmo que a marteladas. No gesto do levante, cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo. Agora precisamos de palavras, frases para o dizer, o cantar, o pensar, o discutir, o imprimir, o transmitir. Até que as próprias paredes tomem a palavra e que este ilustre o espaço público, espaço sensível em sua totalidade. Então tudo se inflama.
'Realizei os primeiros experimentos durante a pandemia, com um projetor preso na janela lateral do carro, que em movimento projeta sob o corpo da cidade textos, sendo, o modus operandi deste trabalho uma metáfora ao ato de cobrir algo, criando uma camada, a língua e a saliva, uma membrana antropofágica sob a cidade.
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Fiz testes técnicos, usando conversores, estabilizadores e outros aparelhos para alimentar o projetor a partir da energia gerada pelo carro, não consegui a estabilidade necessária para que o aparelho ficasse ligado mais que 30 segundos, voltei atrás até poder adquirir um projetor com qualidade luminosa necessária e autonomia de bateria e quando consegui organizei a parafernália eu esperava que iria alcançar o resultado esperado.
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Neste experimento não foi possível ter registro da ação, estávamos em Pandemia, éramos apenas eu e a Mariana Ximenes, minha namorada e parceira nestes experimentos, ela dirigia enquanto eu projetava e filmava, as ruas estavam vazias, nos primeiros experimentos é possível perceber o silêncio, andamos pela ‘Cidade Velha’ quase sem encontrar pessoas ou carros, usávamos máscaras e no calor da noite Belemense, suávamos com medo, mas era preciso lamber a cidade.
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A projeção desta experimentação consistiu em uma imagem em movimento que revelava um texto composto pela união de dois outros texto - que podem ser vistos ao lado - que trazem temas muito importantes para o trabalho: o Levante e a Amazônia, ambos me atravessam e são proeminentes para minhas interlocuções neste processo criativo. Foram trechos retirados do “Manifesto Curau” de Vicente Cecim e, também de partes da publicação “Levantes” de Georges Didi-Huberman'.
Negativo em movimento projetado na cidade.
